A cidade de Canaã dos Carajás tem uma das maiores minas de ferro do mundo, a recém-inaugurada SD11 da Vale. Mas embora esteja inserida ativamente no comércio internacional, até bem pouco tempo essa inserção era de mão única, apenas exportadora. Na cidade de apenas 34 mil habitantes não há cadeias de varejo e a oferta é limitada aos produtos que os pequenos comércios trazem de ônibus da capital Belém ou de São Paulo. Mas cada vez mais os moradores dessas pequenas cidades estão descobrindo as compras pela internet, com a facilidade de comprar com cartões de crédito de bandeiras populares ou com boleto bancário, pagos nas lotéricas e Correios. Esse é um cenário que se repete em todo o Brasil, em especial nas cidades das regiões Norte e Nordeste.

“É uma revolução” considera o economista Anderson Santos, da UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina – que está lançando o livro Capital e Empreendedorismo nos Negócios Digitais. “Esse processo que estamos vendo no Brasil hoje equivale à expansão que a venda por catálogo levou ao interior dos Estados Unidos na virada do século XX. De possuir algumas poucas e caras opções os habitantes das pequenas cidades passaram a possuir catálogos de milhares de itens, pela metade do preço. Essa revolução do século XXI é ainda mais potente, porque o catálogo agora é a internet, com listagem de produtos quase infinita”, explica ele.

Os itens mais comprados são eletrônicos, artigos de moda e de beleza. Conversamos com dois representantes de lojas virtuais que confirmam essa tendência. Francisco Ávila, do site de moda masculina CamisetasImportadas.com vê basicamente dois públicos nas cidades pequenas. “Notamos que há os clientes que já estão acostumados a uma variedade maior de produtos e não encontravam essa disponibilidade em cidades pequenas. Essas pessoas tem uma renda maior e muitas vezes já viveram nos grandes centros. Tipicamente, os clientes nas cidades pequenas do Centro Oeste têm um ticket médio alto e costumam comprar várias peças em uma mesma compra, com camisas, blazers, camisetas “, explica ele. “Há também um segundo grupo, composto por pessoas que antes não tinham acesso a maior variedade e que inclusive se espantam ao ver que conseguem mais qualidade a um preço menor”, pondera Francisco.

Se há alguns anos toda a oferta era composta pelo que os comerciantes das pequenas lojas traziam das cidades maiores hoje sites como o CamisetasImportadas.com produtos de todo o mundo na porta do cliente. Anderson vê esse movimento com bons olhos: “há toda uma discussão sobre o impacto do comércio eletrônico nos empregos do comércio local, mas a maioria das investigações realizadas nos últimos anos têm mostrado que no nível micro há uma contribuição positiva, advinda do ganho de renda do consumidor, que pode gastar o excedente em outras áreas na cidade, como no setor de serviços. No nível macro, há um aumento de produtividade e criação de outros empregos, mais bem pagos na área de tecnologia”, explica o economista.

Yasmin Vieira, do site de perfumes GigaImports.com vê movimento semelhante no setor de perfumaria. “Como nosso site é de perfumes importados o ticket médio costuma ser mais alto, o cliente das cidades pequenas busca a variedade de marcas e os lançamentos que antes tinha que viajar aos grandes centros para comprar”, explica ela.

Esse novo hábito de consumo também vai em linha com a recente tendência notada pelo IBGE, de um fluxo de migração das cidades grandes em direção às pequenas e médias em busca de qualidade de vida. Com as compras por internet as pessoas podem manter o mesmo estilo de consumo que existe nas cidades maiores. Como a internet no Brasil segue em crescimento, principalmente nas cidades menores que até pouco tempo não desfrutavam de boas conexões, esse movimento deve se expandir nos próximos anos levando mais disponibilidade às pequenas cidades e democratizando o consumo.

Fonte: Portal Terra

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